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O ARQUITETO PEDRO SANTANA - Por Consuelo Castro
A Oscar Niemeyer A peça estava na hora de acabar. O catatau se tornara perigosamente extenso e a ação havia se esgotado. Além do que personagem respira feito gente e por mais que eu tentasse evitar, Pedro Santana , o arquiteto dado como louco, estava no último suspiro. Não dava mais pra mante-lo em cena, muito menos com um final feliz. A trama levava à sua desgraça. Era inevitável , técnicamente imprescindivel que ele se ferrassse. Mas como aniquilar um cara assim, idealista, cheio de garra , olhos brilhantes de convicção na bondade intrínseca do homem? Como arrastar para fora do palco, escoltado por dois enfermeiros de manicômio e amarrado numa camisa de força, um sujeito cuja demência tinha sido amar demais a vida e a gente que nela transita? Verdade que a situação – dramatúrgica e histórica_ não permitiria a um arquiteto mentalmente são projetar , em pleno AI 5, uma cidade socialista no interior de Minas Gerais . No entanto Pedro se debruçara desde o início da trama na prancheta que os amigos instalaram em seu quarto de hospício, a conceber a cidade nos mínimos detalhes. Suas falas descrevendo a obra comoviam psiquiatras, parentes, colegas em visita e eu mesma. Eu, que o inventei, que o joguei naquele jogo duro. Erro crasso. Que ele seduzisse os outros persongens estava previsto: era brilhante, carismático. Mas não a mim , autora, sob pena de perder o controle do material. O Ai 5 era o AI 5. Impossivel revogar como uma réplica . E o tempo era aquele mesmo, fedendo a sangue e estrume de caserna. Ame-o ou deixe- o , diziam os novos donos da pátria. Ou a gente aguentava ou cortava os pulsos. Ele escolheu enlouquecer. Sua trajetória até aparecer na minha peça era simples. Pirou na noite de 30 de março de 1964 , ao ouvir pelo radio as funestas ocorrências. Tirou a roupa, mijou na prancheta e desceu mijando as escadas do IAB . Foi internado em surto e internado ficou até se tornar personagem meu. Quem o socorreu, na época, conta que ele não falava coisa com coisa, ou melhor, falava uma coisa só:_Isso não aconteceu! Mas aconteceu. E continuou acontecendo por vinte longos anos. Na vida real, a vida vivida e morrida que nenhum escritor poderia reinventar, sequer contar, porque o cala - boca asfixiava tudo. Ao criar, nesse tempo e mordaça, um texto que Pedro protagonizava contestando o regime e já diagnosticado como esquizofrênico, eu precisava aceitar que ele não subiria à cena- como de fato não subiu. Mas sobretudo que seu delirio, por mais perfeitamente ético e estético que fosse, era manifestação patológica. Não podia ter sonhado seus sonhos nem acreditado naquela demanda profissional que não passava de laborterapia, encomenda fictícia de um usineiro de ferro gusa, amigo de Pedro. A cidade socialista deveria, em tese, alojar os operários do complexo siderúrgico. Porque o dono , em tese, afrontaria a marcha do capitalismo, dividindo mano a mano os lucros com seus empregados. Tudo em tese, como nas terapias ocupacionais, onde o fazer não tem outro objetivo além de ocupar a mente de insanos e deficientes. Se eu estava lúcida como supunha jamais poderia ter me envolvido com Pedro. Nem me apaixonado, como me apaixonei. Porque eu me apaixonei por ele, sim. Tão loucamente quanto ele se apaixonara por sua cidade. Tão loucamente quanto uma pessoa pode se apaixonar por outra que só existe em sua imaginação. Ao terminar a peça não suportava a idéia de arrancá-lo de cena atravès de dois armários de uniforme branco, estrangulado numa camisa de força e sabendo que trabalhara tanto por nada. Mas assim escrevi. Um de nós tinha que se manter consciente para encarar a canalha do outro lado do palco. Hoje sei que, do espaço etéreo para onde vão todas as criaturas ficcionais , Pedro ainda me olha com mágoa. Se puder, meu amor, me perdoe. Eu não tinha alternativa. Ninguém tinha. Consuelo de Castro/ 2/28/10