Ética e Cultura

      Ética: estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto.

         Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira. em Novo Dicionário da Língua Portuguesa

     Frente aos temas que me foram propostos, Ética e Cultura, refleti durante alguns dias, pensando na amplitude de cada uma dessas duas palavras. Tendo que decidir por qual direção tomar, afastei o caminho mais objetivo das relações diretas do fazer cultural e preferi reunir algumas preocupações e pensamentos, preterindo talvez alguma metodologia linear.

        Afinal, Ética me parece ser a maior questão de nossa atualidade, senão de todas as “atualidades”.

        E é a partir dessa definição, ou da necessidade de uma definição sobre a (s) Ética (s), que poderemos discorrer a respeito da Cultura. Cultura em sua ótica mais abrangente, e não apenas em suas manifestações artísticas.

        Proponho então duas perspectivas de como a cultura brasileira pode ser construída e elaborada através de diferentes concepções de Ética.

Ética da exclusão:

        Vou partir de exemplo recente, amplamente divulgado pela mídia, de uma escola que optou por expulsar quatro de seus alunos que reconheceram o fato de haverem cometido um ilícito penal ao fumar maconha durante uma viagem a Ouro Preto. Dizem as notícias que a maioria dos alunos fumou, mas não houve um levantamento aprofundado dos fatos e só os quatro “réus confessos” foram punidos com severidade e expulsos da escola que se diz moderna. Qual a lógica destes acontecimentos?

        Porque todos os outros estudantes reagiram em conjunto contra a medida, assim como inúmeras pessoas, ligadas ou não à escola, escreveram artigos e cartas repudiando tal atitude e mesmo assim nada aconteceu? Alguma razão imperativa impediu a escola de rever suas posições e debater a questão dentro de um princípio de modernidade e maturidade, uma vez que as drogas são um fato recorrente em toda a sociedade e por esta estão sendo discutidas, em maior ou menor escala.

        As razões que me ocorrem são conseqüências do pensamento neoliberal que vem dando as cartas na classe média. É aí que se insere a atual onda de repressão, de castigo “justificado”, ainda que na contramão de opiniões mais avançadas. A punição tornou-se mais importante que a análise através do debate e, conseqüentemente, impediu qualquer possibilidade do surgimento de novas idéias e soluções.

        Duas vertentes me ocorrem: a primeira, sobre a qual não me debruçarei por não interessar ao teor deste artigo, é que a escola em questão não teve recursos nem competência para lidar com o caso.

        A segunda, que nos diz respeito, é que simplesmente foi aqui reproduzida a tendência ética do “politicamente correto”, referendando o atual modelo sócio-político, que traz como conseqüência principal a visão simplista da punição e da exclusão.

        Para tentarmos compreender uma possível origem da questão desta visão da ética na atual cultura brasileira, trago algumas idéias extraídas do livro Punir os Pobres, de Loïs Wacquant, mais precisamente de seu prefácio, de autoria de Vera Malaguti Batista.

        O conceito abordado é o de que as classes dominantes precisam do fortalecimento coercitivo do sistema penal para poder impor, segundo Eduardo Galeano, “... a disciplina do desemprego. Quais as técnicas de obediência obrigatória que podem funcionar contra multidões crescentes que não têm e não terão emprego? A resposta está na fabricação de medos tangíveis e na construção de um gigantesco sistema penal”.

        Se as prisões dos séculos XVIII e XIX foram projetadas como fábricas de disciplina, hoje são planejadas como fábricas de exclusão.

        No Rio de Janeiro, a criminalização por drogas passa de 8% em 1968 e 16% em 1988 a quase 70% em 2000 (Cf Vera Malaguti Batista. Difíceis ganhos fáceis – drogas e juventude pobre no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1998).

        Eis uma das conseqüências desse pensamento excludente: a questão do uso de drogas pelos jovens vem sendo tratada criminalmente, através do castigo. E só se agrava.

        A escola, com sua ética punitiva, reproduziu simplesmente o modelo político da exclusão, não acrescentando nada ao futuro sócio-cultural desta geração. Pior: incutiu o medo ao invés da reflexão.

Ética da inclusão:

        Passo agora ao relato de uma recente atividade da qual participei, em conjunto com vários segmentos da sociedade civil organizada.

        O projeto está se desenvolvendo na Bacia do Goitá, na Zona da Mata de Pernambuco, compreendendo os municípios de Glória do Goitá, Pombos, Feira Nova e Lagoa de Itaenga. A organização responsável é uma ONG intitulada SERTA – Serviço de Tecnologia Alternativa, com sede em Recife, PE. O programa que abordarei nesse texto tem o nome de “Aliança com o Adolescente para o Desenvolvimento Sustentável do Nordeste – Microrregião Bacia do Goitá”. >E o projeto onde trabalhei, dentro deste programa, chama-se “Arte e Cultura interagindo no Desenvolvimento Sustentável”, idealizado por Fernando Portella, presidente do ICCV – Instituto Cultural Cidade Viva, do Rio de Janeiro, RJ.

        E, dando sustentação ao conjunto de ações, temos a Fundação Odebrecht, a W.K.Kellogg Foundation, o Instituto Ayrton Senna e o BNDES. Como parceiro nacional, o SEBRAE.

        O objetivo almejado é despertar e estimular, segundo os princípios da sustentabilidade, uma mentalidade empreendedora nos adolescentes da Microrregião da Bacia do Goitá, de forma a gerar trabalho, renda, elevação da auto-estima individual e coletiva, objetivando a transformação de idéias de arte e cultura em realidade profissional.

        O local de trabalho tem o poético e coerente nome de Campo da Sementeira. Lá, diariamente, reúnem-se cerca de duzentos jovens, todos da região, com idades entre quinze e dezenove anos. É um local isolado das cidades vizinhas, com terreno em parte cultivado e três prédios geminados com salas de aula, secretaria, auditório e refeitório. Neste refeitório todos almoçam diariamente sem distinção entre dirigentes, professores, alunos e demais funcionários.

        Sessenta desses jovens foram selecionados para participar do projeto cultural. As atividades de sensibilização foram jogos teatrais para gerar confiança, apontar lideranças, somar novos conceitos de tempo e espaço, além de conversas a respeito de suas expectativas e desejos, da realidade de suas comunidades e como começar a pensar em transformá-las.

        Pretende-se assim alterar um quadro passivo de pouca ou nenhuma opção cultural para uma intensa movimentação tanto dos participantes quanto das escolas que eles freqüentam, das cidades onde vivem e, indiretamente, de suas famílias, que lidarão com os saudáveis movimentos por que estão passando todos os integrantes do processo.

        Não havendo um vínculo decisivo de nenhum organismo oficial, o projeto não depende de verbas públicas ou de determinadas conjunturas políticas para desenvolver-se. Mas também não se trata de excluir a participação dos poderes públicos. Pelo contrário, todos os sócios são bem vindos, e é exatamente o conjunto da comunidade que nos interessa, com a singular diferença de que as ações têm, como ponto de partida e execução uma juventude com energia e clareza de propósitos.

        É a crença de que, com a Cultura, se encarada por todos os participantes com essa Ética, podemos realmente gerar consciências transformadoras, com a clara noção de que necessitamos também fomentar a atividade econômica e o espírito cultural/empresarial nas comunidades populares.

        Insere-se assim a Arte e a Cultura locais no mercado produtivo, e simultaneamente estimulam-se novos pensamentos, inclusive fortalecendo a auto-estima através da pesquisa e preservação das manifestações culturais de cada região.

 

Rio de Janeiro, 2 de julho de 2001

Caíque Botkay

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